ARTIGOS DE INTERESSE MAÇÔNICO
E À CULTURA EM GERAL


  Título do Artigo -     O Grau de Mestre - fulcro da vivência maçônica.  

 

Autor : Caetano Armando Faraone   c.faraone@uol.com.br  
  Loja do Autor :   
  Outros dados :                                                                                                              Retorna ao Índice  

 ___________________________________________________________                    

 
  Atenção : Comentários sobre o artigo , dirija-se ao autor através seu  e-mail . 
                Se quiser, com cópia para o WebMaster
______________________________________________________________
 
      
                                3.2.  O Grau de Mestre - fulcro da vivência maçônica.
 
Por outro lado - e após ter afastado da Maçonaria propriamente dita a responsabilidade sócio-psicológica do eclodir da Revolução Francesa como reação liberal anti-absolutista e anti-clerical face ao despotismo institucionalizado (dado que a tutela recai sobre as facções jacobinas inicialmente vitoriosas que se introduziram estrategicamente nas Lojas, tendo consequencialmente provocado a degeneração da Iniciação maçónica até a actualidade) - Pessoa refere-nos no mesmo prefácio de ALMA HUMANA a importância imprescindível do terceiro grau simbólico de Mestre, no qual estão contidos todos os arcanos estruturais da Maçonaria :
 
             " O problema da origem da Maçonaria, e sobretudo do Grau de Mestre, que é o seu fulcro, é confuso e obscuro ao ultimo ponto: ninguém, fora ou dentro da Ordem, se pode orgulhar de ter achado para ele uma solução, simples ou composta, que satisfaça senão quem a deu.(...)
            (...), os dois primeiros graus maçônicos, menos simbólicos que emblemáticos, não conduzem definitivamente a coisa nenhuma; e o grande mistério do Grau de Mestre - que é, por assim dizer, a Rosa de toda a Cruz Maçônica - é um símbolo vital mas abstrato, que cada qual pode interpretar no sentido que entender."
            "Conquanto, porém, a Maçonaria esteja assim materialmente dividida, pode considerar-se como unida espiritualmente.  O espírito dos rituais, e sobretudo o dos Graus Simbólicos (nos quais, e sobretudo no Grau de Mestre, está, já para quem saiba ver ou sentir, a Maçonaria inteira), é o mesmo em toda a parte, por muitas que sejam as divergências verbais e rituais entre idênticos, trabalhados por Obediências diferentes. Em palavras mais perspícuas, mas necessariamente menos claras: quem tiver as chaves herméticas, em qualquer ritual, encontrará, sob mais ou menos véus, as mesmas fechaduras".
 
De fato, prosseguindo em dissertação, Pessoa chama a atenção para o problema de somente o grau de Mestre Maçom cumprir simbolicamente o significado iniciático da Gnose Maçônica, garantindo minimamente ao neófito uma real compreensão omniabrangente do próprio processo espiritual evolutivo de morte e renascimento ou reencarnação - aspecto refletido no privilégio institucional de  liberdade de voto e expressão de desfrutam os dignitários maçonicos do terceiro grau, a nível das Obediências (em consonância com o símbolo iniciático da Rosa e da Cruz, em que, sendo esta representação material dos quatro elementos e das quatro direções geográficas, entre outras significações mais internas, e aquela o sinal do desabrochar da  Consciência Integral do Espirito e da Quinta Essência, significa integralmente a Libertação definitiva do Ser face à condição material através da Iniciação.
Seguidamente, nestes trechos - cuja excessiva extensão nos impede de citar na íntegra o primeiro - o poeta igualmente nos fala acerca da profunda discrepância doutrinal que caracteriza o conjunto dos graus superiores em vários ritos maçonicos - uns profundamente anti-cristãos, senão mesmo profanamente ateus e agnósticos, ao passo que outros se encontram extremamente imbuídos de variadíssimas tradições e correntes iniciáticas - e em várias Obediências, dependendo da respectiva concepção face às relações com a sociedade profana, nomeadamente quanto às  suas estruturas político-institucionais, religiosas e econômicas - denotando uma nítida cedência de terreno dos maçons ao mundo profano, contribuindo assim para uma irreversivelmente denunciável e deplorável dessacralização iniciática dos rituais simbólicos e, consequentemente, para a desvalorização integral da fluência energética maçonica:
 
 
 
 
                  "E assim de facto se tem imterpretado - a ele ( o terceiro grau simbólico) e à parte simbólica dos outros dois - através do vasto esquema divagativo dos ALTOS GRAUS e GRAUS VELADOS - estes, aliás, já fora e além da Maçonaria. Tudo, desde o catolicismo ao ateísmo, se tem refletido nesses graus interpretativos. Se há Altos Graus que são nítida e materialmente cabalísticos, e até anti-cristãos, também os há que são espirituais ou cristãos, desde o sobregrau do Sacro Real Arco até àquele grau críptico em que Hiram é erguido como Cristo. Sucede, até, que o mesmo grau do mesmo rito pode ter conteúdos diferentes sob diferentes Obediências : assim é que o grau 18, propriamente Príncipe Rosa-Cruz do Rito Escocês [A.A.] é filosófico na América (depois da revisão de Pike), menos talvez que filosófico na Maçonaria Francesa e suas congêneres, mas plenamente cristão (como aliás não poderia deixar de ser) sob as Magnas Obediências britânicas.Em resumo, nada e tudo se tem refletido na Maçonaria: nada nos degraus simbólicos que de per si se não explicam; tudo nos Altos Graus e nos Graus Velados, onde cada fabricante de ritos, de católico a ateu, deixou o rastro dos seus preconceitos e das suas preocupações. Mais em resumo ainda : a Maçonaria é, nas suas bases, insuficientemente dogmática e definida para que do seu conteúdo se possa afirmar isto ou aquilo, judaísmo ou outra coisa qualquer."
                    " Assim a Maçonaria necessariamente toma aspectos diferentes - políticos, sociais e até rituais - de país para país, e até, adentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, se houver mais de uma".
 
 
 
Acrescentando ainda o problema da origem cultural da mensagem espiritual transmitida pela liturgia maçônica contemporânea, Pessoa procura desmitificar a tradicional identificação intransigentemente unidirecional com o Judaísmo, justificando-a em função da conjuntura  religiosa cristã - reformada e político - mental constitucionalista - democrática da Inglaterra seiscentista e setecentista, em que a Maçonaria se especulativizou institucionalmente :
 
 
                     " Uma coisa, porém, se pode afirmar : A Maçonaria não é uma Ordem judaica, e o conteúdo dos graus fundamentais, que vulgarmente chamam simbólicos, não é judaico em espirito, mas só em figura. Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais uqe poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quanto a redação deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. O quadro judaico dos três graus e o cenário judaico do drama do terceiro podem ser considerados naturais em uma terra e um tempo protestante. O protestantismo foi, precisamente, a emergência, adentro da religião cristã, dos elementos judaicos, em desproveito dos greco - romanos; por isso se serviu ele sempre abundantemente de citações, tipos e figuras extraídos do Velho Testamento. Ninguém crê, porém, ou diz que a Reforma, pense-se dela o que se pensar, fosse um movimento judaico.
A presença de elementos cabalísticos nos graus simbólicos, afirma por alguns vislumbres de razão, também não prova a origem judaica da Maçonaria. Quando a Maçonaria emergiu e se constituiu declaradamente, em seus graus fundamentais, já de há muito a Cabala tinha interpretes não judeus e por esses fora cristianizada, para o que, aliás, eminentemente se prestava. A presença de elementos cabalísticos na Maçonaria não prova, pois, uma origem judaica. De resto, esses elementos cabalísticos resume-se em dois - o sentido simbólico do Templo de Salomão, e a Palavra Perdida. O sentido simbólico do Primeiro Templo pode ser , na Maçonaria, de origem templária, e portanto cristã, pois a  Ordem do Templo era-o do ' do Templo de Salomão' e não se sabem ao certo os pormenores da iniciação secreta nessa Ordem. Quanto à  Palavra Perdida do Grau de Mestre, se de fato relembra o Nome Perdido do Cabalismo judaico, não é necessariamente da mesma natureza. Sabe-se que consiste a essência do Nome Perdido dos cabalistas; não se sabe que espécie de Palavra é que o Mestre morreu para mão revelar. A maior autoridade maçônica de hoje interpreta a Palavra Perdida de um modo nitidamente não judaico : Verbum Christus est , diz".
 
 
É desta forma que o poeta nos atrai a atenção para um fato que posteriormente voltaremos a tratar - as raízes tradicionais templárias da Maçonaria contemporânea - bem como o contexto crístico-simbólico da morte e ressurreição de Hiram Abiff como protótipo messiânico e arauto profético da transição para a Nova Religião face ao Judaísmo oficial cristalizado ( o que não serão estranhas certas paráfrases bíblicas sobre o significado restaurador da dispensação cristã em analogia com a arquitetura simbólica do Templo).
A importância fulcral do grau maçônico de Mestre como culminação apoteótica evolutiva dos três graus simbólicos é igualmente explicitada por Pessoa noutros excertos, por vezes de forma extremamente incomum, senão mesmo única.
Por exemplo, o impacto introdutório da iniciação maçônica é assim descrito pelo poeta, num só texto inédito e não datado, escrito originalmente em francês, aludindo à necessidade imperativa de um suicídio da personalidade, homicídio ritual dos três assassinos de Hiram ( que o próprio neófito representa, enquanto profano mergulhado nas trevas da ignorância e da escravatura da matéria) e à entrega voluntária de  todos valores vilmente metálicos por parte do candidato, antes da iniciação :
 
 
                     " No primeiro grau desta verdadeira iniciação, o candidato tem a tarefa de matar (em si) os três assassinos do Mestre, os elementos que se opõem nele à lei da Natureza - o desejo do supérfluo, a crença na inteligência, a impulsão de dominar ( a vontade de poder de Nietzsche), ou numa linguagem mais simples, a ambição, o orgulho e a vaidade. Isto, de resto, é-lhe já indicado obscuramente no próprio começo da sua vida iniciática, quando é despojado dos metais. Tecnicamente é despojado do ferro, da prata  ( que é a moeda que compra) e do ouro ( que é a moeda que encanta) - metais regidos, respectivamente, por Marte, Lua e Sol, e significativos da ambição, da vaidade e do orgulho. Quando os três assassinos são mortos na alma do aspirante, ele fica pronto para avançar no segundo grau desta ascensão para Deus. A tarefa do candidato é encontrar a Palavra."
 
 
Podemos, no entanto, legitimamente questionar : o que significa encontrar a Palavra?
Conforme próprio poeta nos responde, prosseguindo mais adiante no mesmo texto, consiste na integral transcendência de todas as imperfeições limitativas da existência, reintegrarmo-nos na  ABSOLUTA PERFEIÇÃO ORIGINAL, reconquistando redentora e alquimicamente o equilibrio perdido entre os opostos, que conduziu à desnivelação conflituosa, só sendo tal possível trilhando consciente e perseverantemente a Senda da Sabedoria que os Mestres transmitiram ao Homem decadente :
 
        
                       " O Homem não estava destinado a ser o que é : só se tornou tal pelo Cristo.Encontrar a Palavra é encontrar a verdadeira Lei humana, o Adão primitivo e andrógino, assim feito à imagem do Elohim. Fazer em si   mesmo o casamento dois princípios - eis a Lei Humana reencontrada, a verdadeira criação da pedra filosofal.
                         Hiram é o Homem que deveria ser e a sua Palavra era esse destino que se perdeu. Podemos reencontrar a Palavra, mas reecontrar Hiram. Ele está verdadeiramente morto, e é esse o pecado original : não podemos desfazer-nos dele senão regenerando-nos, ou nascendo de novo. Tal é o sentido da palavra neófito."
 
 
 
Num outroacervo de textos, Fernando Pessoa prossegue a caracterização sumária da essência de cada grau simbólico da Maçonaria, concebidos enquanto etapas mutuamente indissociáveis de um processo pedagógico - espiritual. Se bem que num deles nos indique ser o grau de Aprendiz o simbolo de toda a iniciação, o de Companheiro o de todo o progresso iniciático e o de Mestre o de toda a realização face à frustração e desilusão ( enquanto culminação humana do neófito que se autotranscende), noutros excertos ainda, igualmente inéditos e não datados, o poeta fala-nos exclusivamente do terceiro grau. Num deles, originalmente escrito em inglês, descodifica-nos a meta funcional de autoconsciencialização dinamizante que tipifica o grau maçônico de Mestre, permitindo regressar à comunhão construtiva com o Todo :
 
 
                      " O diabo é o estado morto de Deus. Se é assim, então o Mestre Morto e erguido do terceiro grau, é o Diabo, Príncipe deste mundo, em cuja imagem nós, como seres corruptos, somos elevados; o Mestre Vivo, não Príncipe deste mundo, mas Arquiteto dele, sendo Deus. A Palavra, conhecida dele e dos dois outros - as duas outras pessoas da Trindade - é chave escondida para a construção correta do mundo. A Palavra é Cristo, sendo o 'pensamento' com que Deus fez o Mundo, e maneira pela qual obtemos de novo intercâmbio com os reis."
 
 
Assim a profanidade demoníaca se transmuta na sacralidade divina, o discípulo no MESTRE, a parte no Todo, a  morte na vida, e a negação na afirmação. Assim a Palavra/ pensamento ou Logos/Verbo que edifica organizadamente através da sua sonoridade expressa, igualmente permite restaurar a Comunhão interrompida com as linhagens tradicionais dos reis - os soberanos Hiram e Salomão, respectivamente monarcas da cidade litoral fenícia de Tiro e de Israel,que, com o Arquiteto Hiram Abiff, constituem a Trindade Suprema da Hierarquia maçônica oculta do Grão - Mestre e respectivos vigilantes ou colunas. Assim, o maçom que  se torna mestre, ao recuperar consciente, individualmente e internamente a Palavra Sagrada , Perdida para o mundo (um dos três inimigos atrás referidos) - quando e se o consegue - estabelece um vínculo iniciático com os Arcanos da Ordem Maçônica, intangíveis face a qualquer Obediência, tornando-se consequentemente um adepto aceite daquela.
Num outro excerto, também inédito e  não datado, Pessoa fornece-nos uma outra perspectiva da essência do grau de Mestre, referindo conotações iniciaticas, desta vez com a doutrina das vidas sucessivas da Tradição Oriental, precisamente como mecanismo cíclico - catártico de perfeição evolutiva :
 
 
 
                      " O Templo de Salomão é alma humana. Sua expressão interna e suprema, o Mestre, é morto ( no astral) pelos três assassinos, o  Mundo ( o desejo dos outros) , a Carne ( o desejo em si) e o Diabo (o desejo de mais que si) e é este último que dá ao Mestre, na fronte, o golpe mortal (isto é, na parte mais sublime do ser).
A Grande Obra é elaborar em nós o com ( no sentido estrito e pessoal) que não reencarnarmos, a transmutação ( aqui mesmo) do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não perece.
No sentido lato e universal, é esse mesmo fenômeno, aplicado ao conjunto da humanidade, pelo auxílio e amor dos que se libertaram. Ninguém se liberta senão criando em si a dedicação universal, ao múltiplo outrem. Querer libertar os outros é a condição essencial de nos podermos libertar a nós. É com amor que a liberdade se consegue.
O Diabo é o desejo de ser igual a Deus : como, porém não podemos ser iguais a Deus senão na sua imagem e semelhança de reecarnados, o Diabo é o querer reecarnar."
 
 
 
Além de mencionar os chamados   ' Três Inimigos da Alma humana' da teologia oficial católica - enquanto instintos de propriedade, reprodução e autoproteção, respectivamente ( a serem transcendidos no decurso dos três graus simbólicos, que representam microcosmicamente os acessos respectivos ao Átrio, ao Claustro e ao Sacrário do Templo - realizando assim espiritualmente a ' LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE ' - o poeta coloca essencialmente a tônica na perspectiva da reencarnação, espiritualmente concebidas nas culturas sociologicamente caracterizadas no Extremo Oriente como vinculadas ao Budismo, ao Hinduísmo e ao Jainismo, que postulam enquanto mecanismo cíclico de reequilíbrio face às desarmonias provocadas pela Humanidade desde o início da sua decadência civilizacional e o afundamento progressivo da consciência da personalidade na matéria e no desejo ilusório.
Desta forma é que se permite compreender as palavras de Pessoa, em que é a alienação emocional face às formas e à realidade aparente que conduz à involução espiritual e à morte simbólica do Mestre, que se torna inerentemente ausente ou oculto face aos seus órfãos, igualmente correspondendo à dessacralização do Templo ( aqui microcosmicamente representado pelo de Salomão) e à ineficácia dos ritos, tornados assim ilegítimos e sem sentido.
Esta situação de ricochete segundo a lei cósmica de causa e efeito ( cientificamente ensinada pela Física) conduz à criação voluntária e consciente  de karma, termo sânscrito que designa a resultante talionica - dentro de cada período de vida biológica individual - de energia gerada por atitudes positivas e negativas ( consoante um comportamento altruísta ou egoísta). Enquanto gerador de karma, o ser humano reencarna assim, ciclicamente, até se redimir do bem e do mal que cria, procurando alquimicamente transmutar o chumbo da sua personalidade no ouro que é o seu Eu Espiritual, desvendando a sua autentica identidade, e só pode proceder à sua realização iniciatica encarnando, isto é, descendo dos elevados planos da consciência subtil até o nível da tríplice personalidade (mental, astral ou emocional e físico), controversialmente demoníaca, porque essencialmente desequilibrada e contraditória.
No entanto, é apenas através desse processo que redenção se obtém até que o indivíduo, liberto da roda do ciclo da morte/ vida/ renascimento ou do samsara, atinge o NIRVANA da iluminação( ou extinção de todo o desejo), ou seja , é efectiva e realmente elevado ao grau de Mestre, com absoluta independência e realização existencial humana, transitando então para um grau evolutivo superior de consciência. Assim, Fernando Pessoa igualmente nos diz  que Hiram renascido em cada maçom, o Buda desperto em cada ser regenerado e o Cristo ressuscitado em cada peregrino da Luz correspondem exatamente ao mesmo arquétipo.
 
 
                 JORGE DE MATOS
 
 
                   IN : " O PENSAMENTO MAÇÔNICO DE FERNANDO PESSOA "
 


 
  Observações . :