Sinopse - Síntese                                                                            

Do livro
" Piratininga -
A História da Loja Maçônica Tradição de São Paulo " 
Fundada em 28 de agosto de 1850
Livro a ser lançado em 23 de agosto de 2000 .

José Castellani


  POSIÇÃO OFICIAL DA MAÇONARIA NA ABOLIÇÃO E NA REPÚBLICA


    Muitos documentos já desapareceram dos arquivos do Grande Oriente do Brasil, por negligência, ou pela sanha dos colecionadores. Todavia, através de Secretários de algumas Lojas antigas, os quais transcreviam as pranchas recebidas, ou as explicavam bem, nas atas, é possível, aos poucos, ir reconstituindo a verdadeira História da Maçonaria brasileira. É o caso da sesquicentenária Loja Piratininga, de São Paulo, fundada a 28 de agosto de 1850, cujas 6.000 atas e centenas de documentos foram pesquisados durante três anos, para compor o livro com a História da Oficina (600 páginas), a ser lançado no próximo dia 23 de agosto. Por trechos dessas atas, pode-se saber, hoje, qual era a posição oficial da Maçonaria brasileira, então representada, exclusivamente, pelo Grande Oriente do Brasil, nas duas grandes questões da nona década do século XIX, no Brasil.

José Castellani

Posição do Grande Oriente diante do abolicionismo

            (....)

            A 5 de outubro de 1887, dava entrada, no expediente da sessão, uma prancha oficial do Grande Oriente, a qual mostra bem qual era a posição da Obediência diante da questão dos escravos, segundo relato contido em ata:

            O expediente constou de uma prancha do Gr.: Sec.: Ger.: da Ord.: datada de 16 de Setembro proximo passado communicando a esta Aug.: Loj.: que o Sap.: Gr.: Or.. em sess.: de 9 do mesmo mez deixou de attender a proposta de um de seus membros, no sentido de estabelecer certo prazo fatal, alem do qual nenhum maçon poderia mais possuir escravos == Que a isso foi levado o mesmo Gr.: Or.: pela única consideração de que, já tendo o Estado feito quanto julgou sufficiente em relação a abolição gradual do elemento servil, abolição hoje auxiliada, tanto pela iniciativa individual, como até pelo empenho do clero que entendeu opportuno associar-se agora ao movimento emancipador, só compete a Maçonaria, collocando-se na sua verdadeira posição, cooperar, na medida de suas forças, para que o empenho do Estado e o concurso, sempre generoso, da iniciativa individual, tornem-se cada vez mais fecundos, attendidas em todo o caso as condições especiaes do pais e á necessidade de não desorganizar de chofre o trabalho agricola, fonte abundante da riqueza nacional == Seguem-se outros trechos constantes da alludida prancha que não deixam de ser importantes, e conclue em recommendar que se lhe transmitta, com a possivel brevidade, a franca opinião desta Aug.: e Resp.. Offic.: . A Loj.: inteirada autorizou ao Resp.: Ir.: Ven.: para transmittir a opinião desta Aug.: Offic.: pelo modo que elle julgar mais conveniente”.

             O relato contido na prancha do Grande Oriente mostra, de maneira clara, que ele, como instituição, não se envolveu diretamente na luta abolicionista, dispondo-se apenas a cooperar com a iniciativa individual, inclusive de muitos maçons, que tiveram, realmente, papel de destaque. Chama a atenção, também, a defesa da abolição paulatina, para não desorganizar, abruptamente, os trabalhos agrícolas. Isso acaba com a história da carochinha, defendida por alguns autores antigos, de que o Grande Oriente queria a abolição imediata da escravatura e combatia as medidas que a tornavam gradual.

             (...)     


            Uma proposta de extinção do império

            A 18 de julho de 1888, em sessão dirigida pelo 1º. Vigilante, Martins de Siqueira, entrava, no expediente da sessão, uma prancha enviada pelas Lojas Independência e Regeneração III, ambas de Campinas (1), na qual essas Lojas pediam a franca opinião das demais Oficinas, sobre o sentido de representar, ao Grande Oriente do Brasil, a posição da Maçonaria contra o 3º. Reinado. Ficando a Loja inteirada, foi dado, à prancha, segundo a ata, o destino conveniente, ou seja, foi encaminhada à comissão competente.

            A sessão seguinte, de 1º. de agosto, todavia, foi presidida por Ramalho, velho monarquista, e o assunto da sessão anterior acabou provocando um atrito entre ele e Antônio Bento de Sousa e Castro, que, além do abolicionista que fora, era republicano. No período da palavra geral, Antônio Bento, pedia informações, ou esclarecimentos sobre a atitude que a Oficina deveria tomar em relação à prancha que lhe fora dirigida pelas Lojas de Campinas. E o Venerável Mestre emitia a sua opinião no sentido de que a Loja não se manifestasse sobre tal assunto, o que fez com que Antônio Bento declarasse que, embora não devesse, a Maçonaria, atacar um 3º. Reinado, ela deveria, se manifestar, a fim de que não fosse cerceada a liberdade do cidadão, tratando-se de arredar o jesuitismo, que desejava predominar sempre, em prejuízo de todos. Ramalho, porém, esclareceu os motivos --- não relatados em ata --- pelos quais essa prancha não deveria ser tomada em consideração. A Loja, em vista disso, aprovou a proposta de que a prancha não fosse objeto de deliberação.

            Era uma atitude anti-ética essa de simplesmente ignorar a carta, pois pelo menos uma resposta --- favorável, ou desfavorável, ou até neutra --- as Lojas remetentes deveriam receber. Isso foi notado por alguns obreiros, o que fez com que, a 8 de agosto, em sessão presidida por Ramalho, o Irmão João Baptista Rodrigues Guião, ponderasse que era conveniente dar uma resposta aos Irmãos de Campinas. Ramalho, ao sentir que uma atitude definitiva, em relação à deliberação anteriormente tomada, iria abrir terreno para uma intensa discussão, que poderia acarretar graves inconvenientes, julgou mais acertado acusar, simplesmente, o recebimento da prancha, de modo a não dar a conhecer a deliberação tomada a respeito dela. Vários obreiros manifestaram-se de acordo com tal sugestão, ficando, o próprio Ramalho, responsável pela resposta.

            (...)

O Grande Oriente e o movimento republicano

            A 3 de outubro de 1888, entrava, no expediente da sessão, uma prancha da Loja América, onde ela comunicava, à Piratininga, que a 10 de agosto haviam sido empossados obreiros de seu quadro em diversos cargos vagos --- 1º. e 2º. Vigilantes, Orador e Secretário --- notando-se o nome de Américo de Campos, que fora empossado no cargo de 1º. Vigilante. A informação é preciosa, pois, ao contrário do que afirmam alguns autores, o grande republicano histórico, fundador dos jornais “A Província de S. Paulo” (depois “O Estado de São Paulo”), em 1875, e “Diário Popular”, em 1884, e filiado à Loja América a 15 de julho de 1870, era maçom bastante ativo, pois, se assim não fosse, não teria sido eleito para o cargo de 1º. Vigilante, numa época em que já tinha mais de 50 anos de idade (53, para ser exato) e quando a campanha republicana chegava ao seu auge.

             Em sessão de 24 de outubro, entrava uma prancha da Grande Secretaria Geral da Ordem, a qual é outra preciosidade histórica porque mostra a posição oficial do Grande Oriente do Brasil diante do movimento republicano:

 

            Pranch.: da Gr.: Secr.: Geral da Ord.: em que se communica a resolução que o Gr.: Or.: há tomado sobre as representações que lhe dirigiram as AAug.: Offi.: “Independencia” e “Regeneração III” ao Vall.: de Campinas  e “Estrella d´Oeste” ao Vall.: de Ribeirão Preto, nas quaes representações manifestaram-se contra o 3º. reinado do Paiz, manifestando-se o mesmo Gr.: Or.: que isso não é de competencia da Maç.: “.   

             Isso significa, simplesmente, que, embora houvesse muitos maçons atuando na propaganda republicana, o Grande Oriente do Brasil, como instituição, não tomou partido, não se envolvendo, portanto, na questão.

             (...)

              NOTA

            1. Essa carta das duas Lojas de Campinas e da Loja  Estrela d´Oeste, de Ribeirão Preto, é de 20 de junho de 1888, foi precedida de uma outra iniciativa maçônica no mesmo sentido, partida da Loja Vigilância e Fé, de São Borja, na Província do Rio Grande do Sul, a qual, a 27 de fevereiro de 1887, aprovava proposta do Irmão Aparício Mariense da Silva --- encaminhada, depois a todas as Lojas do Brasil --- no sentido de que fosse evitada a implantação do 3º. Reinado. O mesmo Aparício, como vereador, apresentou, à Câmara Municipal de São Borja, a 31 de outubro de 1887, uma moção plebiscitária, propondo que a Câmara representasse à Assembléia Provincial, sobre a necessidade de se dirigir à Assembléia Geral, para que se consultasse a nação sobre a conveniência da “sucessão, no trono brasileiro, de uma Senhora obcecada por uma educação jesuítica e casada com um príncipe estrangeiro”. A moção foi aprovada em terceira discussão, com uma emenda : que o termo “jesuítica” fosse substituído por “religiosa”.