Resumo:
Qual é o sentido de se perguntar à
população sobre a proibição do comércio
de carros vermelhos depois de se criar
toda a sorte de dificuldades em relação
à posse e uso de veículos daquela cor?
© 2005
MidiaSemMascara.org
Para dar uma folga aos leitores no
assunto Desarmamento, hoje vou contar
uma história, uma fábula, não tão
fabulosa quanto às do Millôr, mas de
qualquer forma uma fábula.
Num país
chamado Ramapindo, o Congresso e algumas
ONGs chegaram à conclusão que o grande
responsável pelas 36 mil mortes anuais
no trânsito e 350 mil pessoas que se
feriram em acidentes de carro, com
muitas incapacitadas pelo resto da vida,
eram causadas por carros da cor
vermelha. As ONGs, entre as quais uma
que coincidentemente recebia gordas
contribuição de um fabricante de tintas,
que também coincidentemente não
fabricava tinta da cor vermelha,
imediatamente começaram a pressionar a
opinião pública e o Congresso por uma
lei que banisse os carros de cor
vermelha.
Alguns
levantaram sua voz dizendo que não havia
nenhuma estatística confiável que
provasse serem os carros da cor vermelha
os verdadeiros responsáveis pelas 36 mil
mortes por ano. Diziam mais: que a
imprensa exagerava, só mostrando, ou
dando especial realce, a acidentes
envolvendo carros da cor vermelha e
assim distorcendo a verdade. Os
responsáveis pela chamada “Campanha
do Desvermelhamento” tiveram o
decisivo apoio da Rede de TV Sphera.
Pessoas bem informadas diziam que o
apoio da rede de TV à campanha era
devido ao fato da Sphera dever bilhões
de Plebeus (a moeda de Ramapindo) à Mesa
de Renda, um hospital de empresas do
governo. Assim, em troca de apoio,
almejava obter tratamento simpático
quanto à dívida. Este fato, porém, nunca
foi comprovado.
Após alguns
esforços e muita pressão, a Corte dos
Grandes de Ramapindo aprovou uma lei,
prontamente sancionada pelo príncipe
regente Ignatius Mollusca Cephalopoda,
saudada pela imprensa de Ramapindo como
a solução para o grave problema. A lei
contemplava as seguintes medidas:
A - No
perímetro urbano, os proprietários de
carros vermelhos não poderiam mais
estacionar seus veículos em um raio de
um quilômetro de: escolas, cinemas,
teatros, restaurantes, lanchonetes,
feiras livres, supermercados, hospitais,
casas lotéricas, bancos, farmácias e
repartições públicas.
B – Nas
estradas, carros vermelhos não poderiam
ultrapassar 40 quilômetros por hora;
C – Menores
de 25 anos não poderiam mais dirigir nem
ser passageiros de carros vermelhos;
D – Carros
vermelhos só poderiam ser abastecidos em
postos da PetroRama (companhia estatal
de petróleo), entre meia-noite e seis da
manhã;
E – Carros
vermelhos só poderiam ser abastecidos
com 50 litros de gasolina por mês. A
quantia não utilizada deveria ser
devolvida à Agência Especial de Controle
de Carros Vermelhos. Para o bom
exercício de suas funções, esta nova
agência ficava autorizada a contratar 12
mil funcionários, sem concurso público.
Para evitar nepotismo ficava proibida a
contratação de parentes com mais de 75
anos de idade na data da promulgação da
lei;
F – A cada
três anos os carros vermelhos deveriam
ser re-certificados perante a Agência
Especial de Controle de Carros Vermelhos
(AECCV). O custo para o proprietário
seria de 30% do valor do carro (a ser
estipulado pela referida agência), além
de dez certidões dos mais variados
órgãos governamentais, bem como um
atestado fornecido pelo bispo local;
G – Era
vedado queixar-se ao bispo local ou a
qualquer outro bispo sobre o assunto;
H – Em
cidades onde não houvesse escritório da
AECCV ficava proibida a posse de carros
vermelhos;
I – As
pessoas que resolvessem desfazer-se dos
carros vermelhos poderiam entregá-los ao
governo. O proprietário receberia o
pagamento equivalente a um décimo do
valor do carro (também estipulado pelo
governo e necessariamente menor do que o
mencionado no item F);
J -
Qualquer cidadão que fosse apanhado
possuindo um carro vermelho sem cumprir
com os dispositivos do Estatuto do
Desvermelhamento seria preso
inafiançável por quatro anos. Isto se
fosse um carro de até 380 cilindradas e
fabricado localmente. Os donos de carros
importados e acima da cilindrada
mencionada seriam punidos com oito anos
de cadeia.
K – Esse
Estatuto não se aplicava aos membros da
Corte dos Grandes de Ramapindo, Juízes e
Ministros, que poderiam possuir e
dirigir livremente carros vermelhos.
Como o
governo ramapindês era democrático, ou
pelo menos pensava que era, a Corte dos
Grandes de Ramapindo decidiu que a
população deveria participar de tão
importante decisão e marcou um referendo
onde o povo deveria responder com
“Sim”ou
“Não”
à seguinte pergunta:
VOCE
ACHA QUE A COMERCIALIZAÇAO DE CARROS
VERMELHOS DEVE SER PROIBIDA?
Moral
da fábula: Qual é o sentido de se
perguntar à população sobre a proibição
do comércio de carros vermelhos depois
de se criar toda a sorte de dificuldades
em relação à posse e uso de veículos
daquela cor?