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Cuidado! Proteja seus filhos: existe um “governo
Lula para crianças”
A B E
T A - RESPEITO À NAÇÃO /
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O Estadão publicou, no caderno
Aliás de domingo, um texto
impressionante do historiador Marco Antonio
Villa, professor de história da Universidade
Federal de São Carlos. Villa pertence a um
reduzidíssimo grupo — eu disse “grupo”, não
“bando” — que tem idéias próprias, que não
segue a cauda do “companheiro” que está na
frente, a exemplo dos bois e das vacas do
senador Renan Calheiros. E porque não formam
um “bando”, eles não adotam a cartilha
petista. Mas também não adotam nenhuma
outra. A função de um intelectual é pensar,
não fazer proselitismo partidário. Discordo
dele às vezes, mas lhe reconheço a
independência.
Villa resolveu passear no site da
Presidência da República. Há lá uma área
destinada às crianças. É a mistificação
somada à ignorância em seu estado de arte.
Lula gosta de seguir os passos da ditadura
do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Mas o DIP
— Departamento de Imprensa e Propaganda —
era, vejam só, menos grosseiro. Leiam o
texto do professor.
*
O site
da Presidência da República é muito curioso. Ao abri-lo, o leitor
verá um trem em alta velocidade, inclusive
com som, simbolizando o PAC, isso quando há
mais de meio século as ferrovias foram
consideradas símbolos do atraso e as
rodovias a essência da modernidade. Deixando
isso de lado, vale a pena clicar no
retângulo azul, no alto da página: “Versão
para crianças”. Nele o leitor encontrará uma
lista dos presidentes da República, de
personalidades históricas, fará um passeio
virtual (pobre, é verdade) pela sede do
governo e ainda lerá um vocabulário, chamado
abc.
A lista dos presidentes é muito estranha.
Primeiro, na versão para crianças, as fotos
foram 'rejuvenescidas', ou seja, o
retrato de cada presidente ficou em forma de
caricatura e com vários anos a menos, não
necessitando, como o atual presidente, de
periódicas aplicações de botox. Segundo, não
é possível entender por que lá estão
presentes as Juntas Militares de 1930 e
1969, que somente ocuparam interinamente a
Presidência. E mais: lá está Júlio Prestes,
o candidato vencedor das eleições de 1930,
mas que não assumiu o cargo, pois um mês
antes (outubro) começou a Revolução que
levou Getúlio Vargas ao poder.
Quando a criança, para usar o linguajar do
pecuarista Renan Calheiros, clicar no “leia
mais”, encontrará as fotos dos presidentes.
A de Lula, estranhamente, é a única
colorida. Todas as outras são em preto e
branco e algumas delas mostram informalmente
os presidentes.
As biografias de vários presidentes foram
redigidas de forma crítica, especialmente os
do regime militar. Mas a biografia de Lula,
a mais longa, é só recheada de elogios. E
ainda há um link para quem quiser também
conhecer a palpitante história da
primeira-dama. De acordo com a hagiografia,
em 1975, Lula “deu uma nova direção ao
movimento sindical brasileiro”. As célebres
greves de 1968, em Osasco e Contagem, não
devem ter ocorrido: “Em maio de 1978,
aconteceu a primeira greve de operários
metalúrgicos desde 1964, em São Bernardo do
Campo, sob a liderança de Luiz Inácio da
Silva, Lula” (esta passagem está na
biografia reservada a Ernesto Geisel). Em
1979, ele “começou a pensar na criação de um
partido”. Cita a prisão, mas omite a
generosa aposentadoria que recebe há anos.
Ele, sempre ele, “liderou uma mobilização
nacional contra a corrupção que acabou no
impeachment, processo que afastou Fernando
Collor da presidência”. (Não se sabe se isto
será mantido, pois hoje Fernando Collor faz
parte da base governamental no Senado e foi
recebido de forma efusiva, recentemente, no
Palácio do Planalto.)
A biografia de Lula é tão importante que
“invadiu” a de outros presidentes: Ernesto
Geisel, João Figueiredo, José Sarney, Itamar
Franco e Fernando Henrique Cardoso. Como se
ele fosse um personagem onipresente na
história do Brasil dos últimos 30 anos.
Ficamos sabendo, na biografia de Lula,
claro, que a sua posse “reuniu pela primeira
vez na história do país, uma multidão de 150
mil pessoas”.
Depois dessa overdose de Lula, a criança
passa para o segundo item: o ABC. É um
vocabulário para ensinar o dia-a-dia do
governo. Das 26 letras, seis não mereceram
nenhuma entrada, algumas até justificáveis
(w, k, y). Infelizmente o vocabulário está
recheado de erros e aqui serão expostos
somente alguns deles. A letra j apresenta
uma curiosa definição da palavra justiça,
até explicável frente à conjuntura que
vivemos: “Antigamente, era função da lei
definir o justo e o injusto. Assim, o
permitido por lei seria justo. E o que a lei
proibisse, injusto. Mas, depois da ascensão
do fascismo (Itália, 1922), esse conceito
deixou de ser aceito. Os fascistas mostraram
ao mundo que era possível criar uma
sociedade injusta baseada em leis”.
Convenhamos que a explicação é esdrúxula,
revelando um absoluto desconhecimento
histórico (entre outros, até sobre fascismo:
somente em 1926 é que é possível dizer que a
Itália é fascista) e uma pobreza analítica
de fazer inveja a um senador do Conselho de
Ética.
Depois de “explicar” fascismo para uma
criança, o vocabulário na letra n resolveu
apresentar o significado de Nação. Definiu
Nação como um grupo que vive em determinado
território, limitado por fronteiras, e que
respeita as mesmas instituições (leis,
governo) e deu como exemplo (?) os ianomâmi.
Em seguida, ficamos sabendo que “o Brasil se
tornou uma nação em 1822” (confundindo a
noção de Estado e Nação), “quando o país
ganhou a sua primeira Constituição.” Aí já é
demais: a primeira Constituição é de 1824.
Em tempo: não sei se é um ato falho, mas o
tema das constituições não é o forte do
redator. Ele diz, na introdução da galeria
dos presidentes, que a Constituição de 1891
adotou o voto secreto, o que também não é
correto (o artigo 47 fala em sufrágio
direto).
Mas é na letra p que há o maior número de
barbaridades. Logo ficamos sabendo que “o
presidente da república é o chefe do
Executivo e escolhe quem vai chefiar o
Judiciário.” (??!!) Evidentemente que está
absolutamente errado: a escolha do
presidente do STF é prerrogativa dos 11
ministros que compõem aquela Corte. Na frase
posterior, a criança é informada que o
“presidente da Câmara dos Deputados é o
chefe do Legislativo”. Presume-se que o
verbete queria informar sobre o presidente
do Congresso Nacional, ou seja, o presidente
do Senado Federal. O verbete termina dizendo
que os “representantes do povo são eleitos
por um período determinado, que pode variar
de quatro a seis anos.” Mais uma informação
incorreta, pois os senadores têm mandato de
oito anos.
Ainda tem o link para as cerimônias. O site
cita o hasteamento da bandeira e apresenta
10 fotos, das quais Lula está em seis; e
também faz referência às cerimônias de
posse, expondo nove fotos, todas de Lula. É
como se na história da República somente ele
tivesse sido o presidente que tomou posse. A
criança, continuando neste passeio pela
História do Brasil pelo método confuso, como
já fez Mendes Fradique, pode acessar o link
das personalidades históricas. Aí,
recordando Sérgio Porto, é o samba do
crioulo doido (e pior: teve a participação
de historiadores). Na biografia de Duque de
Caxias, a criança será informada de que ele
participou do afastamento de D. Pedro II. O
redator do verbete mais uma vez exagerou:
Caxias morreu nove anos antes, em 1880,
portanto não poderia ter participado, ao
menos na forma corpórea, do 15 de novembro
de 1889.
Como o governo Lula está preocupado com a
educação política das crianças, o mais
recomendável seria retirar do ar esse
conjunto de desinformações. É um misto de
aparelhamento do Estado, de culto da
personalidade do presidente, de profundo
desconhecimento básico da história do Brasil
e de suas instituições: mantê-lo no ar é um
desserviço. Em tempo: só para efeito de
comparação, convido o leitor a visitar o
site da
Presidência da República francesa.
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