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TENDÊNCIAS/DEBATES
Nenhum genocídio deve ser
esquecido
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Genocídio Armênio de 1915,
editado na Folha de São
Paulo desta sexta-feira
24.04.2009
JOSÉ SERRA
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Aqueles que insistem
em ressuscitar o
conceito de raça
devem ser contidos,
sob pena de
incitarem processos
odiosos
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O DIA de hoje, 24 de abril,
lembra a campanha de
extermínio movida pelo
governo turco contra a
população armênia em 1915,
durante a Primeira Guerra
Mundial.
Nesse dia começaram a ser
executadas ordens expressas
de extermínio. Em dezenas de
cidades do Império
Turco-Otomano, onde
conviviam pacificamente
famílias de diferentes
etnias, toda a população
armênia masculina foi
reunida à força, executada e
empilhada em vales e cursos
d'água.
Famílias inteiras foram
amarradas e jogadas vivas
nos rios, com um de seus
membros morto a tiros,
levando todos os demais ao
afogamento. Estima-se que
pelo menos 1,5 milhão de
armênios tenham sido
assassinados.
Pelo menos em um caso,
homens foram concentrados em
uma caverna e asfixiados com
o gás carbônico produzido
por imensas fogueiras.
Mulheres e crianças foram
deportadas de todo o império
para os arredores de Alepo,
na Síria (que integrava o
Império Otomano), e reunidas
em campos de concentração.
Parte da deportação se fez
em trens de carga destinados
ao transporte de gado. Nas
centenas de quilômetros
percorridos pela população
feminina, a maioria a pé,
grande parte das deportadas
morreu de inanição ou de
doença e as demais foram
executadas.
As razões invocadas para o
massacre -uma vez que a
política de extermínio é até
hoje negada- foram
principalmente a alegada
traição dos armênios, que
teriam colaborado com o
exército russo no início da
guerra, a necessidade de
limpeza racial para
converter a Turquia, então
multirracial, em uma nação
uniformemente turca, e o
fato de os armênios serem
geralmente mais educados e
mais ricos do que o restante
da população.
Os assassinatos foram em
grande número, houve
deportações em massa, para
dificultar a identificação
dos perseguidos e limitar
sua capacidade de reação ou
de contar com ajuda externa.
Recorreu-se à asfixia por
gases, à inculpação das
vítimas e, mais importante
ainda, à denegação
sistemática e à pressão e
intimidação contra os que
tentaram reconstituir os
acontecimentos históricos.
Nisso tudo o genocídio dos
armênios foi exemplar.
Os fatos foram amplamente
registrados, na época, pela
imprensa americana e
europeia, com destaque aos
jornais britânicos.
Documentos diplomáticos de
diversos países relatam os
massacres sistemáticos da
população armênia masculina
e a deportação em massa das
mulheres com tudo o que isso
implicava de estupros e
mortes por doença e
inanição, sem excluir o
massacre final.
Líderes daquele tempo
referiram-se ao extermínio
-como Winston Churchill, em
seu livro "The Aftermath"- e
ninguém menos do que o
controverso Kemal Ataturk,
que viria a ser considerado
o pai do moderno Estado
turco, reconheceu em 1920 a
existência do massacre,
considerando-o "um ato
vergonhoso".
Não obstante suas diferenças
relevantes, não há dúvida de
que o extermínio dos
armênios foi precursor no
século 20 do genocídio
judaico. O próprio Hitler,
que concebeu e executou o
Holocausto dos judeus, teria
feito a comparação com a
política nazista de
deportação e extermínio em
massa de poloneses: "Afinal,
quem ainda fala sobre os
armênios?".
Mas ainda se fala, sim. Há
relatos detalhados das
atrocidades, um volume
impressionante de resultados
de pesquisas arqueológicas
e, principalmente,
depoimentos de vítimas que
escaparam dos massacres.
Uma versão romantizada, mas
não menos realista do
massacre e das deportações
iniciadas em 24 de abril, é
o extraordinário filme dos
irmãos Paolo e Vittorio
Taviani, "La Masseria delle
Allodele" ("A Casa das
Cotovias"). Com sua
conhecida sensibilidade e
sofisticação de narrativa,
os Taviani mostram o
terrível emaranhado de
sentimentos que uma situação
de extermínio provoca dentro
de uma família e de uma
comunidade, com suas
renúncias e cobiças, seus
pequenos heroísmos e
traições, e sua dor sem
medida, que tanto
desumanizam algozes e
vítimas.
A noção de crime contra a
humanidade pressupõe a ideia
de negar às vítimas de uma
campanha deliberada de
extinção a própria condição
de seres humanos, com seu
direito inerente à
existência. Esse é, aliás, o
passo mais extremado de uma
atitude que começa com o
preconceito, estende-se à
discriminação e culmina com
o racismo. De fato, todos os
processos conhecidos de
extermínio em massa têm como
pressuposto a superioridade
de um credo ou de uma raça e
a consequente inferioridade
de outra.
Aqueles que, em pleno século
21, insistem em ressuscitar
o conceito de raça e em
criar legislações baseadas
na premissa de que elas
merecem tratamento
diferenciado pelo Estado
devem ser contidos em suas
ações e pretensões, sob pena
de incitarem, em algum
momento do futuro, processos
odiosos que não podem ser
aceitos pela humanidade.
Por isso, nenhum genocídio
deve ser esquecido, todos
devem ser lembrados, seus
responsáveis execrados, suas
causas e motivações sempre
pesquisadas e analisadas,
suas brutalidades
reconstituídas, suas vítimas
homenageadas. Nunca esquecer
para que não volte a
acontecer.
JOSÉ SERRA,
67, economista, é o
governador de São Paulo. Foi
senador pelo PSDB-SP
(1995-2002) e ministro do
Planejamento e da Saúde
(governo Fernando Henrique
Cardoso) e prefeito de São
Paulo (2005-2006).
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