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                                                               Remetido por: Mello  

Cidadãos ficarão reféns dos bandidos



"A crítica" - MS
12/09/2005
Victor Barone *

Essa é a opinião do delegado Marcelo Vargas, vice-presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia, presidente da Associação dos Delegados de Polícia de Mato Grosso do Sul (Adepol) e titular da Delegacia de Ordem Política e Social de Mato Grosso do Sul (Deops).

Ele engrossa o coro dos descontentes que vêem no desarmamento, como está sendo proposto, uma ameaça ao cidadão de bem e um reforço ao aumento da criminalidade. Veja a entrevista que deu ao jornal "A Crítica", de Campo Grande.

A Crítica - Essas novas leis que regem o desarmamento, elas facilitam a vida do bandido ou protegem a população?

Marcelo Vargas - Bom, na realidade, em 22 de dezembro de 2003 foi promulgada a lei número 10.826, chamado Estatuto do Desarmamento. A lei, se você analisar ela num todo, ela é bastante positiva porque ela transformou o porte ilegal de arma numa contravenção penal com pena reduzida bastante insignificante num crime com pena específica.
Inclusive, criou novos tipos penais com a questão do tráfico de armas de fogo com penas severas de 3 a 8 anos, e criou também um tipo penal novo chamado omissão de cautela, que é justamente o pai, o proprietário da arma de fogo, que não tem as cautelas necessárias da
sua arma, ou seja, deixa dentro do armário onde as crianças vão e pegam e atiram, ou ocasiona um disparo e acerta alguém. Nestes casos o proprietário da arma é responsabilizado objetivamente através do tipo penal próprio que é justamente a omissão de cautela com pena prevista incidamente. Alem disso ela modificou todo o registro e concessão de porte de armas, dificultou bastante o porte e a compra de arma, isso por si só já é uma grande coisa se a lei já fosse cumprida nesse aspecto.

A Crítica - E em relação ao referendo do comércio de armas e munições?

Marcelo Vargas - Eu tenho uma posição bastante pessoal, contrária ao desarmamento. Esse referendo faz parte desta legislação, que no seu final prevê a consulta popular que será feita agora no final de 2005 para a proibição da venda de armas de fogo em todo o território
nacional. A Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol), da qual sou vice-presidente nacional, entrou com uma ação contrária a isso e nós acompanhamos esse pensamento.

A Crítica - Por que?

Marcelo Vargas - Nos achamos que essa lei fere o direito à propriedade, direito constituído na Constituição Federal. Se eu tenho acesso a compra de arma, eu comprei, eu paguei e tenho minha arma em casa, não tem o porque eu ser obrigado a devolve-la ou não ter o direito de usá-la. É o que vai acontecer no fim, porque, se proibir a venda de arma de fogo e munição, daqui a 10 anos quem tem arma regulamentada não terá a munição, então a arma já não serve para nada.

Vai tirar o direito de propriedade. Além do mais, hoje, a lei já prevê uma série de requisitos para a compra da arma e para quem já tem arma se adequar: obrigatoriedade de realização de exames psicológicos a cada três anos, teste de aptidão teórico e pratico de domínio e uso da arma de fogo, técnicas de manutenção da arma, obrigatoriedade de apresentação de certidões negativas da justiça criminal, federal, estadual e militar e eleitoral, exames psicotécnicos também a cada
três anos, com perguntas direcionadas a psiquiatras e psicólogos credenciados pela Policia Federal. Então, isso por si só vai amenizar as situações, aquelas pessoas desequilibradas que tem acesso hoje à arma de fogo e que por causa de uma briga de trânsito puxam da arma e matam o seu oponente, ou o marido desequilibrado que tomou as cachaças e, com ciúmes da mulher, pega a arma e mata. Tudo isso vai ser identificado nesse exame psicológico justamente para limitar o acesso a arma de fogo a essas pessoas.

A Crítica - Este tipo de situação é muito usado pelos que defendem o desarmamento.

Marcelo Vargas - Briga de trânsito com arma de fogo dificilmente acontece hoje, porque a pena para o porte ilegal de arma de fogo é bastante severa, principalmente se a arma não for registrada, aí é inafiançável. Então, a lei, se aplicada com severidade, e se houver a dura fiscalização da policia, ela é muito eficiente. O grande problema que nós delegados de polícia entendemos é tirar a arma de todo o cidadão brasileiro. Além disso, para quem tem o porte, de três em três anos a pessoa terá que se recadastrar sob um custo. Só a renovação do registro são R$ 300 por ano, mais exames e mais certidões, uma despesa a cada três anos de cerca de R$ 1.000. Só vai ter arma quem tiver habilidade, equilíbrio psicológico e condições financeiras.

A Crítica - A grande preocupação, na verdade, é com o sentimento de vulnerabilidade que o pai de família passará a ter.

Marcelo Vargas - Ao desarmar a população, o que vai acontecer? O ladrão que hoje pratica o furto, que é a subtração de coisa alheia mediante destreza, aquele que entra na casa sem ninguém e subtrai objetos, crime de furto, passará a cometer o roubo, aquele crime em que o cara vem e mete o revolver no cidadão sob violência ou grave ameaça. Esse ladrão que pratica o furto, ele vai começar a fazer o roubo.

A Crítica - Aprovada a proibição de venda de arma, o cidadão que mantém ilegalmente uma arma dentro de casa e é surpreendido por um ladrão, numa situação que ninguém deseja mais que pode acontecer, se ele reage e baleia o bandido, ele vai acabar na cadeia.

Marcelo Vargas - Essa é uma situação que nós expomos em nossa Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o referendo, que está no Supremo Tribunal Federal. Na realidade, é praticamente a extinção da legítima defesa. É bem pontual esta sua colocação. Esta é uma
preocupação nossa. Porque esse ladrãozinho que praticava o furto vai praticar com um canivete na mão, o que praticava com um canivete vai portar uma arma de fogo, porque ele terá a certeza de que a vítima não vai ter resistência, daí ele vai invadir as casas, vai esfaquear, vai
estuprar. Então, há uma preocupação muito grande para nós delegados de todo o Brasil, porque nós sabemos que a segurança publica no País, infelizmente, é deficitária. Queremos chamar a atenção das autoridades constituídas para o fato de que simplesmente tirar o acesso à arma de
fogo não constitui combate à violência, não é uma forma eficaz de combater a violência. É uma medida reativa.

A Crítica - Qual a solução?

Marcelo Vargas - Nós temos que promover medidas pró-ativas para diminuir os índices de criminalidade como, por exemplo, investimentos na segurança pública, apreensão das armas ilegais, campanhas do desarmamento pra tirar de circulação as armas ilegais ou até uma nova
anistia para regularizar estas armas e aí começar a valer as regras dessa forma. Nós observamos que 70% das armas comunicadas seja por extravio, por furto, ou apreendidas em decorrência de homicídio, ou por porte ilegal são clandestinas, são ilegais, não tem registro. Esse problema vai continuar existindo. Aqui em Mato Grosso do Sul temos ainda o problema da fronteira seca, que é a maneira mais fácil de burlar esta proibição. Qualquer um pode atravessar ali em Ponta Porã,
ir numa loja e comprar uma arma, comprar uma caixa de munição, esse problema vai continuar existindo. Então, o que nós queremos é mobilizar a opinião pública nesse sentido, que se invista em segurança publica, para que nós desarmemos o bandido e não o cidadão de bem, que
se cumpra os requisitos que são exigidos na lei para que se possa ter acesso a arma de fogo.

A Crítica - Incrementar a segurança pública é a saída?

Marcelo Vargas - Estima-se que no Brasil se gaste com segurança pública anualmente algo em torno de R$ 0,78 por habitante. Só para as despesas de promoção deste referendo do desarmamento vamos gastar R$ 1,23 por habitante. Então, é um contra senso. Esse dinheiro deveria ser investido na segurança publica, por isso nos somos contrários à elaboração do plebiscito, são medidas meramente reativas. É como se disséssemos o seguinte: vamos andar a pé, porque assim como arma mata muito, acidente de transito também mata muito.

A Crítica - Os defensores da proibição da venda de armas costumam utilizar alguns argumentos como pesquisas segundo as quais a proibição diminuiria os acidentes com arma de fogo em casa, a violência. Mas há muita dúvida sobre a validade dessas pesquisas. Como vocês analisam esta guerra de informações?

Marcelo Vargas - Bom, reduzir a violência até reduz. Esta semana saiu a divulgação de uma pesquisa que fala da redução do número de mortes por arma de fogo, mas eles não mostram o aumento do número de acidentes por arma branca. Você sabe como essas pesquisas são manipuladas e como tem pesquisa para todo gosto. Se você pegar a revista Veja de umas semanas atrás, ela faz o seguinte: mais de 50% da população norte-americana tem arma legalmente em suas residência (nos EUA, com sua carteira de motorista, o cidadão compra um fuzil 762 e leva pra casa, qualquer arma, sem problema nenhum) e, em contrapartida, 3% da população é vitima de homicídios. Ou seja: a cada 100 mil habitantes há 3 mortes nos EUA. No Brasil nós temos 3% de armas registradas pela nossa população - a gente sabe que proporcionalmente esse número se multiplica por 7, que é o número de armas clandestinas estimadas no Brasil., seria então em torno de 21% da população armada. Em contra partida, nós temos 26 homicídios a cada 100 mil habitantes. Este é um bom exemplo. No Japão, 0% da população tem acesso a armas de fogo, nem por isso os índices de violência são reduzidos.

A Crítica - O senhor acha que esta discussão sobre os prós e os contras do desarmamento está sendo feita com a população?

Marcelo Vargas - Não, essa discussão não está sendo feita. A população esta sendo mastigada, até porque algumas emissoras tomaram posição.

Você percebe claramente, por exemplo, como as reportagens da Rede Globo são favoráveis ao desarmamento, é maciça a informação favorável.
A Bandeirantes é contraria, mas proporcionalmente é muito menor que a Rede Globo. Então, não esta tendo um debate claro, justo, para que a população faça a real avaliação do voto, se favorável ou contrário ao desarmamento.

A Crítica - Estamos praticamente em cima desse referendo, ainda há tempo para esta discussão?

Marcelo Vargas - Marcelo Vargas - Difícil. Nós temos a expectativa de que nossa Ação Direta de Inconstitucionalidade seja julgada e o referendo seja cancelado antes de outubro.

A Crítica - Muita gente nem ao menos sabe como a lei funciona hoje.

Marcelo Vargas - Hoje, o que o cidadão pode ter é um registro para ter a arma dentro de sua casa. Quem tem esse registro hoje está legalizado, pode manter a arma dentro de sua residência. Você só compra munição hoje se levar o registro da sua arma e, mesmo assim, você só compra 50 munições por ano. Então, eu tenho um registro de uma arma calibre 38, vou lá e compro um limite de 50 munições da 38, não posso mais comprar neste ano. Se eu não tenho o registro da arma, não posso comprar munição. Há o contrabando, mas se pegarem você com munição contrabandeada você será processado por trafico de arma de fogo. A maioria dos registros no MS são estaduais, com validade até 22 de dezembro de 2006. A partir do momento em que esses registros completarem esse período, obrigatoriamente o proprietário vai ter que se recadastrar na Polícia Federal, fazer o psicotécnico, juntar as certidões, fazer teste de tiro e somente aí ele vai ter renovado o registro dele por mais três anos, aprovado ou não o referendo. Que já tem o registro vai manter. Mas acontece o seguinte, aprovado o referendo, se ele tem munição muito bem, se ele não tem munição a arma fica inutilizada, obrigatoriamente ele vai ter que entregar essa arma para as autoridades competentes pois não terá onde comprar munição.

A Crítica - E com isso ele só vai comprar no contrabando...

Marcelo Vargas - Sim. Vai desarmar o cidadão de bem. Olha, eu tenho 16 anos de Delegado de Polícia e nunca prendi um bandido com arma registrada, quanto mais com porte de arma.

A Crítica - Até que ponto um contrabando vai se tornar mais violento?

Marcelo Vargas - Temos perspectivas de que o contrabando vá aumentar significativamente.

A Crítica - O senhor gostaria de deixar algum alerta à população, algum comentário sobre o referendo?

Marcelo Vargas - Temos que cobrar das autoridades constituídas que olhem com mais seriedade para a segurança publica. É fácil tecer críticas à polícia, mas na realidade o que precisamos é reformular a estrutura da policia brasileira. Essa questão estrutural das duas polícias nos Estados, uma civil e outra militar, é um grande equívoco.

Há somente discórdias, há duplo investimento e não há otimização de recursos humanos e de materiais. Em resumo, o que nos precisaríamos é de uma polícia nova, de uma policia única, possivelmente desmilitarizada, sem querer ser contra o militarismo, respeito os policiais militares, mas a estrutura da Polícia Militar é muito pesada, não serve pra segurança pública, não é exemplo de segurança pública. Somente países subdesenvolvidos como o Brasil, o Chile e mais
alguns outros países mantém esta estrutura militarizada. Nós precisaríamos de uma estrutura mais enxuta, menos hierarquizada e única.

A Crítica - Esta questão está sendo discutida?

Marcelo Vargas - Há um projeto na Câmara dos Deputados que fala dessa unificação das policias e que, no nosso entendimento, é o caminho, a solução para a polícia no Brasil. Agregado a isso teríamos que trazer para a polícia algumas garantias constitucionais como tem hoje o Ministério Público, sobre a questão da imobilidade, da autonomia, da eficiência do seu trabalho, como tem hoje a magistratura. Porque hoje um delegado está sujeito a, por exemplo, prender o filho do vereador numa cidade do interior e encontrar problemas posteriormente. Então, essas garantias são importantes de serem trazidas para a polícia, porque isso fortaleceria a segurança pública. Além disso, precisaríamos de mais investimentos. Um país como o Brasil não pode investir R$ 0,78 por cidadão/ano. O que precisa ser feito é investir na segurança publica e na carreira policial, com isso teríamos condições de promover uma melhor segurança para a população.

 
 
 

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